fevereiro 16, 2004

Noites de sortilégio – I

NOITES DE SORTILÉGIO


Naquela época, a minha mãe ia todos os dias comprar leite, de leiteira de alumínio na mão, a casa do Ti Duarte, que morava a dez minutos, indo pela estrada, ou a cinco, pelo carreiro do poço, para encurtar caminho.

Íamos à noitinha, a seguir ao jantar e à mesa levantada mas antes do arrumar da cozinha, para que a minha mãe, ao lavar a loiça, pudesse ter já o leite a ferver e a leiteira vazia para a lavagem. E digo íamos porque ela insistia sempre para que tanto eu como o meu irmão a acompanhássemos e, geralmente, nenhum de nós, por hábito e por gosto, se fazia rogado.

Tinha eu então a indefinida idade que paira estranhamente entre a infância, que se foi de vez, e a adolescência que vai chegando, e estudava no Liceu, na cidade, para onde ia todos os dias, em viagem de ida e regresso de comboio que durava perto de uma hora. O meu irmão, três anos mais novo, estava à beira de acabar a escola primária obrigatória que fechava, nesse tempo, com o exame da quarta classe.

Ti Duarte era, como ele mesmo dizia, um pouco de muitas coisas: pescador, quando o mar andava calmo, que o barco e o dono estavam velhos e já nem um nem outro aguentavam vendavais; agricultor de uma “cerca” de terra que não tinha mais que umas vinte árvores e uma dúzia de regos para as batatas, as cebolas, os alhos, as couves e “uns canteirinhos para as novidades”. Consistiam estas últimas, se me não falha a memória e o meu pouco conhecimento desses saberes, na ervilha, fava, feijão verde e tomate. Dizia ele que também era “criador de gado”, divertida hipérbole para quem tinha vinte ou trinta bicos apertados na capoeira, entre galinhas, galos e pintos, uns quantos porcos na pocilga, meia dúzia de ovelhas meigas presas a uma corda com estaca, dois ou três bezerros mugindo no estábulo estreito e - ex-libris de Ti Duarte - uma única vaca leiteira, criada a mimos e rações duplas. Por isso, o leite que nos vendia tinha de natas a espessura de dois dedos, e tão espessas e amarelas que, com três litros, se fazia uma colher cheia de manteiga.

Mas Ti Duarte era, acima de tudo, um conversador e contador de histórias sem fronteira entre o passado e o presente, o real e o imaginado.

«Ó menina Anita», começava ele de mansinho, «uma vez trabalhava eu a desbastar uns silvados na Quinta do Alto, que a sua mãe bem conhece. Naquele tempo a Quinta do Alto não era o que é hoje, ainda estava toda em bravo, silvas e ervas que chegavam à cabeça de um homem... Oh se chegavam, havia lá ervas tão cerradas e tão altas que um homem se escondia lá por baixo e deixava de ver a luz do sol. Aquilo era de se perder a respiração!...»

Eu puxava um banquinho de madeira para junto da mesa comprida, de toalha de xadrez polvilhada ainda de migalhas de pão do jantar, e fazia roda, mais a minha mãe, com Ti Duarte e a mulher, a senhora Gracinda, enquanto o meu irmão se entretinha a brincar com o gato cinzento de guizo sonoro ao pescoço. Por cima da mesa pendia o “petromax”, um candeeiro enorme, a petróleo, preso a uma corrente vinda lá do alto, do telhado, e que Ti Gracinda espevitava de vez em quando, para alumiar mais. O círculo de luz do candeeiro envolvia-nos, brilhante ao centro e desmaiando-se cada vez mais, ao longo das paredes da cozinha, até morrer em enormes aranhas rastejantes de sombra.

«Pois estava eu aí a trabalhar nessas silvas, a desbastá-las, quando encontramos uma cobra como na vida não vi outra», continuava Ti Duarte, a moer o cigarro mole entre os lábios. «Olhe que a sua mãe talvez ainda se lembre de ouvir falar neste caso, vão talvez para cerca de uns trinta anos, a cobra gigante da Quinta do Alto.»

Olhava interrogativamente para a minha mãe, que procurava na memória recordações distantes, olhava para a mulher, entretida em espevitar as brasas do fogareiro com a tenaz comprida. Ti Gracinda meneava afirmativamente a cabeça, arredondada pelo lenço escuro, ria e atiçava mais o lume, o de carvão e o da conversa:

«Ora, se me lembro...»

Ti Duarte endireitava e enchia o peito magro com uma inspiradela forte de ar, abria os braços quanto podia, olhava para um e outro canto e sentenciava:

«Era um bicho capaz de engolir uma pessoa! Tinha a grossura da cinta de um homem e tão comprido que era capaz de dar a volta a esta cozinha.»

Eu arregalava os olhos para a direita, para o escaparate de parede onde sobressaíam as sombras redondas dos pratos e as projecções cilíndricas das canecas penduradas pelas asas, em filas certinhas. Remirava o poial onde Ti Gracinda arrumava as bilhas de barro da água e a vasilha do leite, coberta com um pano branco. Olhava depois para a esquerda e crescia o susto no meu peito à vista do emaranhado das redes de pesca e outros utensílios para o mesmo uso, aconchegados daquele lado, a um canto.

«Pois fique a saber, menina Anita, que foi preciso uma carroça puxada a duas bestas para levar a cobra e, mesmo assim, não cabia: a cabeça ia a pender à frente e o rabo a arrastar atrás.»

(continua)

anamar - 1989

Publicado por vmar em fevereiro 16, 2004 04:56 PM
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